Bibliotecas errantes
Gonzalo Aguilar

Um dos primeiros gestos da vanguarda foi abandonar a biblioteca e sair às ruas. Deixar de lado o trabalho de gabinete – em que a cabeça se inclinava sobre os livros – para misturar-se às vozes e paisagens das cidades, mergulhando num caos de pés e pernas. Oswald de Andrade escreveu seu Manifesto Pau Brasil contra “o lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos” e também contra os “jurisconsultos”. O argentino Oliverio Girondo, no manifesto do jornal Martín Fierro, enfrentou os que tinham “a incapacidade de contemplar a vida sem escalar as estantes das bibliotecas”. No entanto, por mais que renegassem as aborrecidas bibliotecas que o século XIX havia lhes deixado, os vanguardistas nunca deixavam de aparecer com seus livrinhos, sonhando com a possibilidade de instaurar uma nova ordem, uma biblioteca que não fosse alheia à “prática culta da vida”. A “baixada antropofágica” procurou, no final dos anos vinte, montar uma nova biblioteca com o objetivo de substituir as anteriores. Porém, o disperso Oswald, que nunca foi um arquivista de si mesmo como Mário, nunca chegou a formá-la. Mais de vinte anos depois, em 1950, voltou a idealizar uma biblioteca antropofágica com sua tese A crise da filosofia messiânica. Neste ensaio, procuro percorrer ambos os projetos com a finalidade de apreender a imagem dessas bibliotecas errantes. Em Vida e morte da Antropofagia, Raul Bopp conta que, entre os projetos para o programado Congresso de Antropofagia de 1931, constava a formação de uma “Bibliotequinha Antropofágica”. O diminutivo reivindicava o formato pequeno, o texto breve, a escrita em escala reduzida de que eram adeptos os vanguardistas. Livros de bolso. Segundo o testemunho de Bopp, a biblioteca teria como volumes fundadores Macunaíma, de Mário de Andrade, e Cobra Norato, do próprio Bopp. Também constaria de várias compilações. Uma delas era “Sambaqui ou restos de cozinha”, que incluía artigos da  Revista de Antropofagia em sua primeira e segunda dentições. Seu nome vinha do tupi: “samba – explica Bopp – significa conchas e ki amontoado. Portanto, sambaqui é literalmente um amontoado de conchas”. Outras compilações eram uma antologia de “cantigas de ninar”, baseada no repertório da cantora Elsie Houston (esposa de Benjamin Peret), um volume sobre a “Escola Brasileira”, que propunha uma renovação dos “programas de ensino” e o “Livro de Festas e Folguedos”. Nesta biblioteca, que colocava a antropofagia ao alcance de todos, não podiam faltar os textos históricos: isto é, os relatos dos viajantes sobre as tribos indígenas e seus costumes, que tanto apaixonavam os integrantes do movimento. Com o objetivo de, nas palavras de Bopp, “catar resíduos doutrinários”, os membros da revista compilaram e definiram “os clássicos da Antropologia”: Thevet, Jean de Levy, Hans Staden, Capistrano de Abreu, Martius, Couto de Magalhães, Montaigne, Jean-Jacques Rousseau e todos aqueles textos nos quais irrompia o mau selvagem. O índio antropófago (ou o que se imaginava dele num “passado a posteriori”, para usar as palavras de Nietzsche) é o princípio organizador dessa primeira bibliotequinha antropófago-oswaldiana.

Finalmente, nem o congresso – programado para o dia 11 de outubro, em Vitória – chegou a se realizar, nem a biblioteca chegou a ser feita: a prometida “baixada antropofágica” se transformou numa diáspora e seus anti-apóstolos, dispersos pelo mundo, começaram a escrever as necrologias e os epitáfios. O próprio Oswald empunhou a pá e começou a cavar sua própria sepultura, para decorá-la com o epitáfio do que havia sido e, graças ao comunismo a que recém aderira, já não era. Nesse longo obituário de seus anos vanguardistas, que é o prólogo de Serafim Ponte Grande (1933), Oswald só resgata de seu passado o que de seu “anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo”. A antropofagia mordia e ria ao mesmo tempo. Sarcasmo, etimologicamente, é a palavra que morde a carne, do grego  sarkasmos (carne rasgada) e tem a mesma raiz que sarcófago (etimologicamente, carne comida). Findava uma época e começava outra, e a biblioteca antropófaga somente retornaria, sob outras formas, com a tese A crise da filosofia messiânica.

Disposta numa ordem alfabética rigorosa, a “Bibliografia” é lida como um catálogo humorístico, ou como a enciclopédia chinesa de Borges: das Obras de Nietzsche, Ortega y Gasset ou Bertrand Russel (contrariando toda precisão acadêmica), à heteróclita lista que correspondia, por exemplo, à letra K, Pedro Kropotkin, Sôren Kierkegaard, Wolfgang Köhler e Grümberg Koch. O que se pode esperar de uma mesa para a qual foram convidados um anarquista, um existencialista, um gestáltico e um etnólogo? Que nova combustão promete a simples aproximação ou mistura de elementos incompatíveis ou altamente perigosos? A partir de que Oswald organiza sua própria biblioteca? Há, entre todos esses livros, um que possa servir como ponto de apoio para movimentar a alavanca de Arquimedes e colocar em suspenso todos os outros?

Esse livro é Du règne de la mére au patriarcat, de Johann Jakob Bachofen. A oposição entre matriarcado e patriarcado, que serviu a Bachofen para revisar os documentos da antiguidade, regula agora a construção da biblioteca, mais que os testemunhos do descobrimento e da conquista. No entanto, a presença de Bachofen não tem apenas a ver com a hipótese que A crise da filosofia messiânica propôs demonstrar, mas principalmente com seu método de pesquisa.

Segundo George Boas, a obra de Bachofen deve ser considerada no âmbito da filosofia da história. Jurista, antropólogo e docente na Universidade da Basiléia, em sua grande obra O matriarcado (Uma investigação sobre a ginecocracia no mundo antigo segundo sua natureza religiosa e jurídica), publicada em 1861, procurou demonstrar a existência de um direito materno que precedeu, em todas as culturas, o direito vigente na atualidade, de natureza patriarcal. A grande dificuldade encontrada por Bachofen reside no fato de que, para a imaginação patriarcal dominante, a postulação de um direito materno é apresentada como um “quebracabeça insolúvel”: não apenas foram extintas as sociedades regidas pelo direito materno, como nossas leituras dos documentos são feitas, há séculos, a partir do direito paterno.

Na polêmica com o positivismo contemporâneo à escrita de seu livro, Bachofen recusa a idéia do mito como fantasia e reivindica seu estatuto de documento, sustentando que o mito se forma ao redor dos fatos como uma concha. O mito não é uma “coisa sem valor”, mas algo que pode ser tratado como um documento. De maneira complementar, a idéia de unidade cultural o leva, além disso, a sustentar que o matriarcado é um estágio cultural e, portanto, não se encontra restrito a um povo em particular. Com essas premissas, Bachofen faz uma leitura muito peculiar da documentação disponível sobre a antiguidade, buscando nos relatos, mitos, objetos, testemunhos e imagens os restos porventura legados pelo direito materno. Por isso, quando Bachofen fala da precedência do estado matriarcal sobre o patriarcal, não é possível entendê-lo num sentido meramente histórico, mas como a existência de algo que sucedeu no passado e atua no presente como recusado, reprimido, nos silêncios, nas frestas, ou mesmo convertido em detritus. Bachofen irá reunindo estes traços e vestígios para armar com eles seu corpus materno.

A radicalidade da postura de Bachofen é entendida quando pensamos que um dos textos sobre os quais constrói sua demonstração é a Orestéia de Ésquilo, onde é visto claramente como o direito arcaico, defendido por Clitemnestra, é substituído pela defesa que os deuses atenienses de Orestes fazem do matricídio. Lido  après-Freud, Bachofen parece dizer que Édipo existiu, mas que antes dele havia o mito de Orestes. Da mesma maneira, também seria possível dizer que, nessa futura biblioteca antropofágica, a trilogia de Ésquilo tomaria o lugar do onipresente Édipo de Sófocles.

É possível contestar tudo isso afirmando que não se entende como um método tão inovador, pelo menos para um século dominado pela idealização da antiguidade ou pela submissão de suas fontes ao olhar racionalista, pôde ter chegado a conclusões equivocadas, como foram as de Bachofen, a partir de um viés científico. Para responder a esta pergunta, teremos que recorrer a um dos leitores mais entusiastas de Bachofen: Walter Benjamin. Em julho de 1934, Benjamin começa a redigir um texto sobre Bachofen para, em princípio, torná-lo conhecido entre o público francês (somente em 1938 seus textos viriam a ser traduzidos). Pensa publicá-lo na prestigiosa Nouvelle Revue Française, que, ao que parece, recusa seu texto. Mas o objetivo de Benjamin não era apenas sua difusão. Preocupado com a captura do imaginário que o nazismo havia realizado, Benjamin procura, por um lado, mostrar como Bachofen evita a idealização da cultura grega, como fazia Winckelman e, do mesmo modo, Mommsen, com o historicismo positivista; e, por outro, revelar que as leituras nazistas pretendiam fazer com Bachofen algo similar ao que fizeram com Nietszche, erigindo-o como um representante da anti-Zivilisation, de acordo com a ideologia nazista. É um momento importante, porque nos anos trinta fica cada vez mais claro para os intelectuais que eles não poderão ter acesso à dimensão política sem a participação das massas. Frente à exploração feita pelo nazismo do imaginário coletivo, vários pensadores sustentaram a necessidade de uma intervenção nesse processo, o que exigiria uma consideração não positivista dos mitos. O próprio Oswald observava, nestes anos, “que as massas sempre tenderam ao mitológico no seu desenvolvimento espiritual”. A questão era como evitar que a imaginação ficasse refém do domínio patriarcal.

Tanto Benjamin como Oswald foram contra o uso que o nazismo pretendeu fazer de Bachofen, opondo à imagem do bárbaro irracional que os nazistas queriam projetar a figura do cidadão suíço, bom burguês, cristão e afável, participante da democracia de seu país. Ou, acrescenta Oswald, “um turista erudito e rico”. É no clima desses debates dos anos trinta sobre fascismo e civilização, sobre o mito como instrumento de domínio ou de liberação, sobre a reconstrução historicista ou uma leitura a contrapelo da história, que deve ser entendida a recepção de Bachofen. Por isso, como afirma Benjamin, mais importante que a veracidade de suas teses é o fato de que seu método constitui “a subversão do conceito de autoridade”, representado pela figura paterna.

Oswald teve acesso às teorias de Bachofen através das leituras de Engels e Nietszche, mas foi, sem dúvida, a leitura de Du règne de la mére au patriarcat, uma seleção de escritos realizada por Adrien Turel e publicada em Paris em 1938, que permitiu conhecê-lo mais detalhadamente. Em seu ensaio “Variações sobre o matriarcado”, incluído em A utopia antropofágica, afirma: “fica claramente estabelecido que o Matriarcado precedeu ao Patriarcado em toda a terra”; na tese, diz que “devem-se a Bachofen, vulgarizado por Nietszche, as primeira pesquisas sobre o Matriarcado”. Através de Bachofen, Oswald reafirma suas idéias sobre a antropofagia e elabora um método que, na tese, estará numa permanente tensão com uma dialética um tanto básica, que orienta teleologicamente a história na direção do retorno de um novo Matriarcado.

No entanto, a originalidade e a potência da tese não residem apenas no uso da dialética, mas na utilização de Bachofen como princípio organizador da nova biblioteca. Em A crise da filosofia messiânica, Oswald faz uma leitura bastante pessoal e sintética do método de Bachofen: “Será preciso – escreve – criar uma Errática, uma ciência do vestígio errático, para se reconstituir essa vaga Idade de Ouro, onde fulge o tema central do Matriarcado.” Errar pode significar aqui tanto  alucinar, quanto  caminhar, segundo a evocação sugerida em “Roteiros. Roteiros. Roteiros”, do manifesto antropófago. Assim como vestigium, que etimologicamente significa “seguir uma pegada”, a marca que deixa o pé na terra (o roteiro), também pode significar ruína. Todas estas conotações combinam muito bem com a defesa feita por Bachofen do mito e dos detritus.

A Errática é antimessiânica, nos pés, mas não na bibliotecacabeça. Na biblioteca antropófaga, podemos encontrar também a construção de um antagonismo possível. Tal como Benjamin queria ler em Bachofen, trata-se de utilizar a imaginação para minar o princípio de autoridade, estratégia que talvez seja um dos impulsos que aparece com mais persistência na obra de Oswald. Assim, não seria mal regressar a essa “bibliotequinha antropofágica” e extrair dali os textos que possam servir de manual de sobrevivência, ou como receita de cozinha contra o guisado da autoridade. No livro Vida e morte da antropofagia, Raul Bopp resgata um dos textos exemplares do cânone de um de “nossos indigenistas”, que serviu para dar lugar, nas sessões do congresso de 1931, às pesquisas sobre a “Índole Pacífica do Gentio”:

O chefe de uma tribo, por atributos sobrenaturais, tinha poderes soberanos, marcadamente legítimos dentro de uma determinada área (por exemplo, a situada entre dois rios confluentes). No momento, porém, que o grupo ficava desgostoso com o chefe (por uma conduta tirânica ou por não haver cumprido o que prometeu) os componentes do clã não iam tramar uma revolução ou sublevação para usurparem o poder. Nada disso. Toda a tribo, simplesmente, se deslocava para outro lugar, fora dos limites de sua jurisdição, e deixava o chefe sozinho.

Deslocamento, êxodo, sociedade contra o Estado, questionamento da autoridade mal exercida: agora podemos abandonar a biblioteca, pois estas palavras de 1931 demarcam um espaço de futuro.

In Por una ciencia del vestigio errático (Ensayos sobre la antropofagia de Oswald de Andrade)– Gonzalo Aguilar; Buenos Aires: Grumo, 2010.
Tradução de Romulo Monte Alto: publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais, julho/2008 - download do PDF