NINGUÉM Eu sou o rei Ninguém trago minha terra de ninguém no bolso Com passaporte estrangeiro viajo de mar em mar Água teus azuis teus negros olhos sem cor Meu pseudônimo Ninguém é legítimo Ninguém suspeita que eu seja um rei e no bolso traga minha terra apátrida
Arthur Nogueira/ Erick Monteiro Moraes Rose Ausländer
[poema original]
Rei Ninguém Arthur Nogueira Estava imerso no processo de criação do meu novo disco quando, entre tantas descobertas, o poeta Erick Monteiro Moraes mostrou suas traduções de Rose Ausländer (1901-1988). Essa mulher impressionante, poeta de língua alemã, judia, sobrevivente do Holocausto, é uma das maiores autoras do século XX. A despeito disso, sua obra lamentavelmente é pouco conhecida no Brasil. Fiquei encantado com os poemas e suas versões em português. Erick, apesar de ter apenas 24 anos, é um excelente tradutor do alemão, do grego, do inglês e do latim. Ainda não publicou seu primeiro livro de poesia, mas é reconhecido por seus professores e também por todos aqueles que, como eu, têm o privilégio de ter acesso ao seu trabalho em primeira mão. Todas as traduções foram realizadas com rigor e preservam ao máximo a forma dos poemas, mantendo o ritmo e a concisão dos originais de Ausländer. Acabei por musicar dois deles, mas "Ninguém" foi o que se impôs e abriu caminhos à compreensão de quem eu sou agora, inspirando o nome do disco. A autoridade de negar as formas e as ordens é o que faz do "Rei Ninguém" o personagem ideal para a representação da crítica, do possível e da mudança. Um ser universal, absoluto, livre, moderno. Como aprendi com Antonio Cicero em O mundo desde o fim, "moderno" é um adjetivo oriundo do advérbio latino "modo”, que significa "agora mesmo" e está relacionado à essência deste instante. Em resumo, quando digo "este instante", faço referência ao instante em que me encontro, há um eu como sua condição necessária, sem o qual este instante não pode ser concebido.   Este eu, no entanto, não é pessoal, mas universal. Ainda que eu negue minha própria identidade, isto é, que sou um brasileiro, paraense, de 29 anos, não posso deixar de pensar que não seja este instante. Acima de tudo, agora eu sou ninguém e, por isso mesmo, sou o que eu quiser, possibilidade e mudança, imaginação e liberdade. "Todo artista criativo", ilumina-nos Cicero, "sempre foi e é moderno", por ser "excêntrico em relação a qualquer centro positivo ou convencional" e representar, em sua própria singularidade, a novidade legítima. Como incita Ausländer em outro poema traduzido pelo Erick: "esquece / tuas fronteiras" ("Vergiss / Deine Grenzen"). A terra de ninguém, "infinita" ("Unendlich"), é uma conquista e uma revelação. Foto: Rose Ausländer com seu futuro esposo, Ignaz Ausländer, 1922.
NIEMAND Ich bin König Niemand trage mein Niemandsland in der Tasche Mit Fremdenpass reise ich von Meer zu Meer Wasser deine blauen deine schwarzen Augen die Farblosen Mein Pseudonym Niemand ist legitim Niemand argwöhnt dass ich ein König bin und in der Tasche trage mein heimatloses Land
[tradução]