A poesia dos números
Alfred de Vigny

 

Nos tempos pré-computadorizados de outrora, o mundo volta e meia se assombrava com calculadores prodígios, surgidos nos lugares mais improváveis, nas condições menos plausíveis. Como o iletrado escravo afro-americano Thomas Fuller que, ao ser desafiado por dois senhores da Pensilvânia em 1750, respondeu em alguns instantes quantos segundos havia vivido um homem com a idade de 70 anos, 17 dias e 12 horas: 2.210.544.000! Ou o garoto francês Henri Mondeux (1826-1862), também analfabeto, que realizava cálculos vertiginosos, brincando com seixos e gravetos, enquanto cuidava de ovelhas. Aos catorze anos, descoberto por um professor de Tours e levado a Paris, foi sabatinado na Academia das Ciências pelos grandes matemáticos da época. Nunca conseguiria aprender a ler e escrever corretamente, nem aplicar seus incríveis dotes algébricos em atividade lucrativa. Teve fama passageira, mas soube inspirar um dos mais belos poemas de Alfred de Vigny, acontecimento que ficou registrado nos anais da Revista dos Dois Mundos (30/07/1841):

– Após haver escutado Henri Mondeux, esse prodigioso menino que adivinhou as matemáticas transcendentes apascentando rebanhos, o sr. Alfred de Vigny, impressionado por aquela espécie de intuição que fez com que Henri Mondeux já tivesse resolvido, estando sozinho e desconhecido pelos campos, problemas por equações, sem saber ainda anotar os números e nomeá-los corretamente, escreveu ontem, sobre ele, os seguintes versos...