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18.01.2019 - 16:27 (Itajaí-SC)
Antonio Carlos Floriano

Do livro Post Provisório - Editora Espelho d’Alma - SP

COMO SE APRISIONA UM RIO PARA SI


como se aprisiona um rio para si
não há moirões na água
arame para circular uma cidade

apenas um poço de nuvens
engolidos nos mergulhos
nas voltas infindáveis da geografia

onde encontrar o calor dos outonos
as sombras desvanecidas
a pouca cor dos trapiches adernados

como amarrar um navio fosse um bicho
segurá-lo na corrente contra o terral
se a noite se esconde na luz do farol

se a noite sussurra nas tralhas das redes
a solidão dos beliches sem ar
da tinta envenenada manchada de mar

que se tome um banho de água doce
para prender o rio sob a pele do rosto
se tirar das mãos as escamas das unhas

para se prender o rio na memória do poema
feito um navio na geografia da cidade
é preciso inventar um mapa no coração


TUBARÕES SOBRE CABEÇAS

no aquário de shinagawa
tubarões nadavam sobre minha cabeça

aproveitava o pouco de um dia
quando tinha um dia para respirar um pouco

e o que fazia além de respirar?

somente um morto teria melhores histórias
caminhando por tóquio em shinagawa

onde scorts fingiam gueijas
homens de negócios douravam rolex

onde tailandesas eram estrangeiras dentro do oriente
adoravam o desenho de meus olhos

me serviram pratos desenhados do sião
seus corpos minguados

a tarde em shinagawa minguava de ausências
os tubarões passeavam sobre minha cabeça

UM BARCO FORA D`ÁGUA

um barco fora d’água é um animal sem patas
por fora mostra o oco de dentro
de dentro a feitura do que aparece fora
sobre os jazentes de ferro se assenta
sobre a espera corrente do rio em suas costas
espera a corrida da carreira no rio que o assente

um barco pronto é um animal perene




HUMAITÁ
há um caminho de bosque
perto do humaitá
árvores antigas se abraçam
trançando sombras iluminadas
nas fachadas dos casarões vazios
há uma alegria ruidosa e juvenil
na gare do metrô de botafogo
contra tudo e contra todos
o rio de janeiro continua lindo.
DEBAIXO DOS TRAPICHES
quantos passos eu teria contado até chegar ao cargueiro panamenho quantas linhas de solda seriam preciso para juntar a pele de seu dorso a ilusão de sua respiração pausada na casa de máquinas seus andares de tubos até a direção de tudo sua madre do leme
de longe ainda debaixo dos trapiches onde os velhos jogavam seus puçás e urinavam na sombra azinhavrada
eu temia o corpulento navio panamenho e sua hélice de garra cortante temia que as amarras pudessem estourar e nada o deter de sua força feito um gordo bêbado caindo sobre as mesas do bar verão vermelho
ele estava ali parado e era dia e eu podia correr e fugir de sua fuga estava ali preso nos cabeços do cais enterrado de barriga no lodo desta cidade
esse terror da figura negra do navio e suas sombras dançantes na água de sua cor na noite de pequenas luzes contra os contornos da igreja de navegantes das carteiras de cigarros camel jogadas do bordo pelos marinheiros noruegueses nos trilhos dos guindastes e da vida subterrânea da estiva e dos consertadores
esses eram os passos medidos até eu chegar perto do cargueiro panamenho ter coragem de passar a mão no seu costado e sentir suas cicatrizes de soldas um animal submergível na água uma cidade marinha flutuante de perto tanto medo pendurado de bandeiras como um continente uma ilha que de longe me pareceu tão lindas subindo as margens do Itajaí

O PREÇO DO LIVRO
gastei trinta e três reais para ler
o esquimó de fabrício corsaletti
encostado a uma arara
das lojas renner

tinha uma promoção
de boas calças
por apenas trinta e nove reais

só não tinha o meu número

SOBRE O ASFALTO MOLHADO
sobre o asfalto molhado diviso o mar
na chuva da tarde o mesmo momento
em que ficava lançando barcos de papel na água

a tinta a óleo da nossa velha casa de madeira
formava mosaicos como uma doença na pele

meu pai se foi na distância
e a mãe disse que deus faça de pedra pão

estamos tão tristes no japão.

AS MENINAS CHINESAS

as meninas chinesas vestidas de amarelo
cantam a cantiga
na plantação verde de chá

aprendo teus gestos passageiros
nos teus olhos posso ver
meus próprios sonhos
nos teus sonhos posso ver
o mundo inteiro

YURAKU - CHÔ

essa manhã passei em tóquio
manhã em que um vento frio come o outubro
e o mundo reorganiza suas enormes digitais

deus deve estar rindo de minha inútil matéria
e de quanto tempo perco observando essas pessoas
talvez até hoje espere um aceno na estação de trem
um aceno de ninguém

esse amontoado de olhos a consumir as janelas
dos expressos silenciosos a caminho da manhã
partem como a primavera e fico sempre à espera
de uma pequena palavra um aceno de bom dia

a hora passa na manhã vazia

28.12.2018 - 22:46 (Cotia-SP)
Wilbett

Olá! para que email enviarei ensaio, resenha e poemas para publicar nesta revista?
Abs

25.11.2016 - 10:55 (São Paulo-SP)
Ricardo

Tenho textos concretos para publicar. Como faço para enviá-los. Obrigado!

16.04.2016 - 00:10 (São Paulo-SP)
Fernando Graça

Bom dia.

Como faço para enviar poemas meus?

Me identifico com o repertório do site.

Um abraço

30.03.2016 - 00:54 (Rio -RJ)
Ivone

Olá

Vocês têm a referência de um poema/texto de Maiakóvski intitulado Fúria de Orfeu ou algo parecido. Dei uma busca em vários motores de pesquisa, mas nada encontro.
Obrigada

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